quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

o nadador

parte da capa do "a praia", álbum do cícero

[um texto escrito apenas para organizar o que se passa na minha cabeça, daí a estrutura provavelmente esquisita]


Se fazer uma escolha banal - tipo, sei lá, qual é o próximo livro que eu vou ler - já é difícil para mim, imagina decidir algo mais complicado, como em qual universidade eu vou estudar nos próximos anos. 

O curso, pelo menos, já está escolhido: é Letras. A escolha mais óbvia seria ir para UFRJ mesmo. Federal, bem conceituada, atende melhor às minhas expectativas que a UERJ. Era só isso que eu tinha na cabeça, finalmente algo definitivo depois de tantas dúvidas sobre o futuro… quer dizer, “definitivo”.

Do nada, surgiu a oportunidade de estudar Letras na USP. Sim, lá em São Paulo. Depois de conhecer melhor a estrutura do curso, conversar com pessoas de lá e pesar todos os aspectos negativos da mudança, essa passou ser a escolha mais óbvia. Afinal, atende ainda mais o que eu quero para o futuro, minha mãe aceitou (depois de algum esforço, claro) e, apertando um pouco e fazendo uns malabarismos, mudar de estado é possível.

Mas, como eu já disse, escolher é difícil

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A USP representa muita coisa que eu sempre quis. Não apenas quanto ao curso em si, mas a vida que eu precisaria adotar se eu a escolhesse. Morar em São Paulo. Morar sozinho - “longe da família”, na verdade, porque eu teria que viver dividindo apartamento, pelo menos inicialmente. Trabalhar. Ter mais responsabilidades. Poder, de fato, crescer. Fazer faculdade em outro estado seria, finalmente cortar o cordão umbilical. 

A UFRJ, por outro lado, significa continuar na mesma casa que eu sempre morei, vivendo com a minha mãe e a minha avó. Conhecendo novos ambientes, contudo respirando os mesmos ares. Tocando um projeto no colégio que eu queria muito continuar, claro, mas mantendo uma estrutura de vida que retardaria a maturidade que eu desejo alcançar. 

Assim, eu passei a encarar a minha escolha como o desafio paulista ou o conforto carioca. A resposta do corajoso, do que quer alçar voos mais altos, é pegar o primeiro avião para São Paulo e começar essa nova vida agora. Ele diria que continuar no mesmo lugar é covardia, é se acomodar na calmaria das águas. 

Qual deles eu sou, o homem que boia ou o que nada?

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Uma das conversas que eu tive serviu para eliminar a ideia de que preferir o conforto é um atitude covarde, principalmente se falarmos de saúde mental. (Obrigado, Clara!)

As três experiências das estudantes da USP que eu pude conhecer apontaram como a pressão - da universidade, do curso, do ambiente - potencializa casos de ansiedade e depressão. E, bem, eu já sofri (e em alguma medida ainda sofro) com ambos por causa do ensino médio e da vida como um todo. Como eu reagiria se passasse por momentos difíceis desses estando longe de casa, numa situação bem mais pesada e sem ninguém íntimo para me apoiar? Por mais que eu já tenha amigos lá, ninguém é obrigado a lidar com os meus problemas.

Isso me deixou bastante receoso, até que eu me dei conta de que estar com a minha família nunca foi um fator de segurança para mim. A única pessoa que realmente me apoiou e me passou força nos meus piores momentos foi a minha mãe, porém, mesmo assim, a pessoa realmente capaz de me segurar e fazer as coisas voltarem aos trilhos fui eu. Não minimizado a ajuda e o carinho de quem se importa comigo, eu mesmo sempre encontrei os caminhos para melhorar, seja escrevendo, indo atrás de psicólogos e psiquiatras, desabafando com amigos (na maioria das vezes, virtualmente). 

Por isso, talvez a chave para lidar com essas questões esteja em mim e na rede de conexões que eu construo ao meu redor, e ela não precisa ser necessariamente composta pela minha família.

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A essa altura, eu já estava completamente vidrado com a possibilidade de ir para a USP. O desejo era tanto que teve efeito contrário, e eu comecei a questionar se eu realmente queria ir para São Paulo pelos motivos certos. É a faculdade, ou é a oportunidade de fugir?


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Além de que eu sou bastante Rachel Berry nesse aspecto: quando eu passo a desejar algo, esse se torna o meu único objetivo e nada mais importa. Eu planejo, eu penso o tempo todo, eu só falo sobre. Depois de um tempo, sempre acabo descobrindo as coisas que eu realmente desejo ou o que só foi uma das obsessões temporárias. (Geralmente, é frustrante porque quando eu percebo, eu já gastei meu dinheiro com o objeto de desejo e passo a ter que sofrer o arrependimento a cada camada de poeira que ele ganha esperando ser utilizado.) Mas aqui a gente está falando de algo grande, cujo arrependimento traria consequências especialmente pesadas.

Então, ok, digamos que eu continue no Rio, fique em casa, estude na UFRJ e… não, não dá.

Ter a possibilidade de ir para USP me fez perceber que o conforto, por mais que seja agradável, não tá me levando a lugar nenhum. Sim, eu poderia fazer da UFRJ o melhor para mim, mas eu ainda teria o ninho da casa da minha mãe esperando por mim. E não é isso que eu quero. A USP é uma possibilidade boa pela faculdade e pela oportunidade de fugir.

Eu já acompanhei a correnteza por bastante tempo, só que o que eu quero mesmo é nadar.


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P.S.: Ir para USP foi uma decisão que já estava meio que tomada há uns dias e de fato consolidada hoje. Não esperava falar sobre (sabe aquele medo de espelhar e dar tudo errado?), mas acabei escrevendo isso aqui e não gosto muito de guardar as coisas. Enfim, espero que dê certo no sisu. 

2 comentários:

  1. Espero que dê, Paulo! Torcendo por você :)

    Engraçado que muio desse texto casa com coisas que penso.

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