sábado, 26 de dezembro de 2015

um natal de merda

 

Ontem, uma amiga querida desejou um feliz natal e disse esperar que eu tivesse visto as luzes de natal se acenderem. Nem mesmo a explicação de que se tratava de uma referência a um texto meu, publicado no natal passado, foi suficiente para eu ter uma vaga ideia do que ela falava. Essa foi a evidência final de que o Natal está, pouco a pouco, morrendo dentro de mim.

Quando reli meus textos <<O Natal está aí, mas e a magia?>>, de 2013, e <<Hoje eu não vou comemorar o natal>>, de 2014, praticamente não me reconheci. Aquele menino que tinha uma visão completamente idealizada do natal não está mais aqui – ou pode estar, mas não mais representando quem eu sou.

Há dois anos, eu estava animado e fazendo coisas. Há um ano, as coisas estavam difíceis, mas não perdi as esperanças num suposto espírito natalino. Aí chega esse ano, que nem texto pré-Natal saiu. É como um processo de acreditar, duvidar, e, finalmente, desacreditar. Alguém poderia dizer que isso sou eu amadurecendo e deixando o ar infantil para trás, mas eu não concordo, a não ser que amadurecer signifique quebrar idealizações. 

A primeira coisa que eu percebi é que os sentimentos quanto às festas de final de ano – pelo menos os meus – estão diretamente relacionados ao ano que você passou. Se meu 2013 foi feito de descobertas e expectativas e meu 2014 de decepções e cansaço, em 2015 eu me (re)descobri, experimentei e aprendi. Foi um ano que eu fiz muita coisa – além de estar terminando o Ensino Médio e me preparando para os vestibulares da vida, minha rotina era cheia de aulas extracurriculares, duas iniciações científicas e uma iniciação artística –, o que me desgastou até o ponto máximo. Terminei 2015 grato por tudo que me aconteceu, mas também muito cansado e sem ânimo para mais nada. Por isso, quando o Natal desse ano chegou, meu interesse era, literalmente, no livro que minha mãe havia comprado para mim e nas comidinhas especiais dessa época.

É um sentimento parecido com o que eu expus no ano passado, quando disse: O Natal chegou sem que eu me desse conta da sua presença e agora não consigo encontrar nem mesmo uma fagulha do espírito natalino que eu sei existe dentro de mim. Há, contudo, uma diferença na minha conclusão. Lá, eu carregava uma esperança no significado de renovação da data, e o trazia para uma esfera particular, indicando uma autorreflexão. Eu poderia acreditar nisso de novo, se não fosse pela minha falta de energia para depositar em qualquer tipo de fé.

A situação da família também é outro fator influente na sua percepção sobre o Natal. Dessa vez, a comemoração não foi na minha casa, então nada de decoração especial ou correria para limpar e cozinhar tudo e ainda preparar lembrancinhas para os convidados. A comemoração ainda foi na casa de parentes não tão agradáveis, o que tornou a experiência pior. Se o Natal não é em casa, não existe aquele clima especial de preparação; se o Natal não é em casa e você não está disposto a se reunir com as pessoas e celebrar, torna-se apenas uma obrigação de agenda que você anseia para cumprir de uma vez e ficar livre.

E esse foi o meu Natal 2015: uma festa cheia de tensões familiares, com uma ceia preparada por pura obrigação, sem espírito natalino em mim ou qualquer outro parente. 

Esse conjunto de sentimentos negativos me levou a uma nova conclusão: não existe união familiar verdadeira. Família é um conjunto de pessoas diferentes, que geralmente consegue se encaixar nas divergências, mas que às vezes só é um monte de farpas para todo o lado. É impossível unir o que não é harmônico, então, talvez, o verdadeiro espírito natalino seja justamente entender isso e aceitar. Aceitar que não existe Natal perfeito, aceitar que não depende apenas de você, aceitar que você pode dar um novo significado a data a partir do que você mesmo sente. 

Pode ser que, com essa ideia na cabeça, o Natal de 2016 e todos os que vierem a seguir sejam mais agradáveis, e quem sabe todo o meu amor pela data retorne. É aquela máxima de fim de ano: o próximo será melhor. 

Sinceramente, a minha única expectativa é que pelo menos tenha rabanada.

- p. v. s. 

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